(Rubem Braga)
Entre tantas notícias do jornal - o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés - há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.
Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta
d’água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não
conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor
diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27
vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio"
está, efetivamente, em flor.
Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi
deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e
cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita
coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. Agora, já
desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde,
quando há sol - ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e
choram gotas e flores no chão.
Suspiro e digo comigo mesmo - que amanhã acordarei cedo e
irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive
ao ler a notícia ficará no que foi - um impulso de fazer uma coisa boa e
simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam.
Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir
ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais
"flor-de-maio", e então pensarei que é preciso esperar a vinda de
outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja
outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa
"flor-de-maio".
No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas
sejam lidas por alguém - uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e
simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa:
do dia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânico estão
gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo
diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-de-maio" - talvez com a
mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.
Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio";
aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais
bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa
criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem
tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões
desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade
possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever
uma crônica.

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